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Mulher Rural: conheça a trajetória das campeãs do café de Rondônia em 2019

Poliana Perrut e Diná Suruí se destacaram em concursos de café no estado. Campeãs falam da atuação da mulher na cafeicultura rondoniense.

“Meu pai me disse que as mulheres fortes deveriam encarar estes cursos como desafios”, destaca Poliana Perrut, a primeira mulher campeã do Concurso de Qualidade e Sustentabilidade do Café de Rondônia (Concafé) em 2019.

Em outro concurso de café, Tribos, foram premiados indígenas produtores de café robusta em Rondônia. O primeiro lugar também teve as mãos de uma mulher na lavoura, aDiná Suruí, que subiu ao palco ao lado do marido, Yami-xãrah Suruí. As campeãs tiveram pontuação acima de 80 em seus lotes apresentados aos jurados.

A tendência da permanência “delas” no campo pôde ser vista na edição 2019 do Concafé. Isso porque houve um aumento de 550% de inscrições femininas na competição. No ano passado, o concurso teve a participação de nove mulheres. Agora foram mais de 50 inscritas.

Segundo dados do IBGE, 18 mil propriedades rurais em Rondônia têm plantação de café. Destas, cerca de 50% da renda vem das mulheres, que atuam em diferentes áreas do processo produtivo do café.

Detalhe = qualidade

Poliana Perrut foi campeã com 88,60 pontos no concurso estadual de café.  — Foto: Poliana Perrut/Arquivo pessoal

Poliana Perrut foi campeã com 88,60 pontos no concurso estadual de café. — Foto: Poliana Perrut/Arquivo pessoal

Determinada e confiante, o trabalho é o foco da engenheira agrônoma, viveirista e produtora rural Poliana Perrut, do município de Novo Horizonte do Oeste, região da Zona da Mata em Rondônia. Ela lembra que a personalidade que tem é uma contribuição do pai, que a motivou a não desistir.

“Desde pequena sempre fui muito determinada. Cresci em uma família onde não haviam diferenças no tratamento de meu pai entre meninos e meninas. Éramos quatro irmãos. Eu a mais nova. Quando tomei a decisão de fazer agronomia (aos 17 anos). Meu pai um dia me disse que este curso recebia o esteriótipo de ser prioritariamente masculino, mas que as mulheres fortes deveriam encarar estes cursos como desafios, e que eu seria uma mulher forte e, portanto, conseguiria competir em igualdade no mercado de trabalho, e ainda levaria vantagens pois a mulher é mais atenciosa aos detalhes. Empenha amor e carinho às suas funções”, explica.

Na lavoura, Poliana trabalha ao lado do esposo, Licleison Silva, e faz questão de destacar a importância do apoio que recebe e sempre recebeu do companheiro.

“Ele acredita e confia em meu trabalho. Tem me apoiado imensamente. Quando decidi que gostaria de fazer lotes especiais, conversamos e decidimos fazer alguns investimentos como o terreiro suspenso. Em certos momentos, quando achava que poderia não dar certo, ele sempre me apoiava a continuar com o trabalho, pois, segundo ele, ‘se não der certo, vamos descartar o processo e encontrar outra maneira'”.

A agrônoma destaca ainda que o apoio da família foi fundamento para o desenvolvimento do trabalho no campo. Ela expressa o desejo de que as mulheres ganhem cada vez mais espaço nesse ramo.

A extensão da lavoura de Poliana é de quase dois hectares. Na área cultiva 6,4 mil pés de café. No concurso estadual de qualidade, a produtora levou a premiação principal por apresentar grãos com nota 88,60.

O detalhe sempre fez toda a diferença para Poliana. A agrônoma usou clones das melhores plantas e diferentes métodos de processamento, como o natural e as fermentações especiais. Dedicação e perseverança que renderam além da premiação em dinheiro, uma vaga para representar Rondônia na Semana Internacional do Café, que acontece de 20 a 22 de novembro em Belo Horizonte.

Café na aldeia

Casal de indígenas teve a pontuação de 89,63 pontos do café produzido em aldeia de Rondônia.  — Foto: Renata Silva/Arquivo pessoal

Casal de indígenas teve a pontuação de 89,63 pontos do café produzido em aldeia de Rondônia. — Foto: Renata Silva/Arquivo pessoal

A indígena Diná Suruí e o companheiro, Yami-xãrah Suruí, foram os campeões da primeira edição do concurso de qualidade dos Robustas Amazônicos, o Tribos, que é destinado apenas para indígenas. O casal é da terra indígena Sete Setembro, da etnia Suruí, da aldeia Tika, que fica em Cacoal.

Por ser indígena, tem uma relação diferente com o café. Diná expressa a importância da dedicação ao trabalho que tem realizado com o cultivo dos grãos. “O café não é da cultura Suruí, mas a gente abraçou esse trabalho. Hoje, o café é muito importante para nós. Agora mais que nunca pensamos em perseverar e nos dedicar ao trabalho para que o café seja cada vez melhor”.

Na lavoura, as mulheres indígenas têm a função de plantar e cultivar alimentos. “Sou auxiliadora dele. Tudo depende um do outro. Ajudar no detalhe é o meu trabalho e assim tem dado um resultado melhor. Estou aprendendo cada vez mais. União faz força”, finaliza.

A área cultivada dentro da aldeia é de um alqueire com 2,5 mil pés de café em produção. O cafezal divide espaço com a floresta e árvores frutíferas.

Segundo especialistas, que incentivaram os cuidados especiais no pós-colheita, os cafés produzidos por eles têm sabores amazônicos, notas de chocolate e castanhas. Uma mistura da cultura tradicional dos índios com as técnicas apresentadas por pesquisadores. O resultado no concurso foi um café especial com 89,63 pontos. A qualidade da bebida foi o que garantiu o primeiro lugar no evento inédito no país.

Campanha Mulheres Rurais

Em 15 de outubro, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Dia da Mulher Rural. Na primeira quinzena de outubro foi realizada a campanha Mulheres Rurais, Mulheres com Direitos.

A campanha promoveu 15 dias de mobilização para valorizar a contribuição das trabalhadoras do campo ao cumprimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, relacionados à igualdade de gênero e ao fim da pobreza rural.

O tema da campanha foi: “O futuro é junto com as mulheres rurais”, que lançou a hashtag #JuntoComAsMulheresRurais.

O objetivo da campanha é destacar o trabalho promovido por pescadoras, agricultoras, extrativistas, indígenas e afrodescendentes.

A campanha foi coordenada pela Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em parceria com Organização das Nações Unidas à Alimentação e a Agricultura (FAO), além da ONU Mulheres e parceiros.

Na quarta-feira (23), a série ‘Mulher Rural’ vai contar a história de uma agricultora que enfrentou o preconceito de outra mulher ao abrir um crédito em uma loja.

G1

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