Em meio a acusações de falta de transparência e de independência da Petrobrás para definir seus preços, a estatal anunciou ontem que o óleo diesel, a gasolina e o gás liquefeito de petróleo (GLP) vendidos em suas refinarias vão ficar mais caros a partir desta terça-feira (9/02)
A decisão vem em linha com a recente alta da cotação da matéria-prima, o petróleo, e ainda ajuda a empresa a tentar dissipar dúvidas de que estaria contendo aumentos de preço para favorecer os caminhoneiros e evitar uma nova greve da categoria. Os caminhoneiros são grandes consumidores de diesel e aliados do presidente Jair Bolsonaro, que chegou a defendê-los durante a paralisação de maio de 2018.
A partir desta terça-feira, o litro do diesel da estatal vai ficar mais caro R$ 0,13; a gasolina, R$ 0,17, e o quilo do gás de cozinha, R$ 0,14. Os reajustes são respectivamente de 6%, 8% e 5%. O botijão de GLP de 13 kg é largamente usado pela população para cozinhar e, por isso, tem grande peso no cálculo da inflação.
Os questionamentos sobre a política de preços da Petrobrás surgiram na última sexta-feira, após a agência Reuters divulgar que a empresa mudou de três meses para um ano o prazo de acompanhamento da cotação do petróleo no mercado internacional para decidir se deve ou não reajustar seus preços internos. Quanto maior o prazo, menor a chance de a empresa repassar para seus clientes mudanças momentâneas no mercado externo.
A informação sobre a mudança do prazo de acompanhamento dos preços internacionais não foi bem recebida pelo mercado. Já nesta segunda-feira, primeiro dia de negociação após a divulgação da notícia, as ações da Petrobrás caíram, chegando ao fim do pregão com queda de 4,14%, no caso das ordinárias, vendida a R$ 28,45, e de 3,14%, das preferenciais, a R$ 28,11. Nem mesmo a informação de que o petróleo continua subindo foi suficiente para animar os investidores a pagar mais pelas ações.
Transparência. Em relatórios aos clientes, analistas de bancos sinalizaram que o momento é de cautela com a Petrobrás. A XP Investimentos disse que existem riscos cada vez mais elevados de a política de preços da estatal não obedecer referências internacionais.
Na mesma linha, o Bradesco BBI afirmou que “a empresa pode decidir vender diesel abaixo do mercado por maiores períodos de tempo” e que isso “pode atrasar a venda das refinarias, uma vez que qualquer decisão que afete os preços do diesel pode ter impactos na lucratividade dos ativos, afastando possíveis compradores”.
A Petrobrás quer se desfazer de oito refinarias. Ontem, anunciou a conclusão das negociações da Rlam, na Bahia, com o fundo de investimentos dos Emirados Árabes, o Mubadala.
A principal crítica do mercado financeiro à companhia petrolífera é de que faltou transparência em sua comunicação, o que teria abalado a confiança de que possui, de fato, autonomia para tomar decisões que contrariem o governo, seu principal acionista.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão regulador do mercado financeiro, afirmou ao Estadão/broadcast que “acompanha e analisa as informações envolvendo as companhias abertas, tomando as medidas cabíveis, quando necessário.” A autarquia destacou, no entanto, que não comenta casos específicos.
Pablo Renteira, advogado e ex-diretor da CVM, lembra que o artigo 157 da Lei das S.A. prevê a divulgação imediata de qualquer decisão da administração ou fato relevante que possa influir na decisão dos investidores de vender ou comprar títulos emitidos pela companhia, o que seria o caso de uma mudança na política de preços.
Fonte: O Estado de S. Paulo

